terça-feira, 27 de julho de 2010

Latir ou não latir, eis a questão

por Luiz Merten  blogs ESTADÃO SP

26.julho.2010

Teria de retroceder no tempo. Quais as peças que me marcaram nos últimos tempos? O ‘Calígula’ de Gabriel Villela, o ‘Policarpo Quaresma’ de Antunes Filho. E agora o ‘Vida’ da Companhia Brasileira de Teatro, nome talvez pomposo para o coletivo de Márcio Abreu, de Curitiba. Fui ver a peça ontem no Sesc Santana. É uma colagem de textos de Paulo Leminski, mas não só dele, porque existem referências e citações de Maiakovski, Haroldo de Campos, Beckett, James joyce, Mishima, Petrônio e Cruz e Sousa, o poeta simbolista biografado por Sylvio Back num belo filme subestimado (como quase toda a obra de Sylvio). Talvez tivesse dificuldade para resumir, se vocês me perguntassem sobre o que ‘versa’ a peça. É sobre tudo, e nada em particular. Digamos que é sobre a linguagem, já que começa como uma discussão sobre as palavras. O que eu digo aqui te interessa, leitor? Como dizer algo a alguém? Como despertar o interesse? O texto e o espetáculo são sobre isso. O título amplo é a melhor definição. É sobre a vida. E a vida o que é, diga lá, meu irmão? Ah, Gonzaguinha… Havia uma criança na plateia, uma menina. Ela falava com a mãe. Vi que muita gente estava incomodada, mas a menina era uma gracinha e acrescentava ao texto. Numa cena, o ator Ranieri González desaparece de cena e volta vestido de mulher. A maneira como ele volta, de repente, como se atirado dentro da cena, pega a gente de surpresa. A menina sentenciou – ‘Ele não é mulher’. Era impossível deixar de rir. Acho que o próprio Ranieri gostaria de ter rido. Achei tudo tão lúdico, inteligente. As duas horas me caíram leves, sem peso algum,e eu saí com 1001 ideias, 1001 interrogações. Em outra cena, Ranieri canta de forma lancinante, exprimindo dor sem que uma só palavra seja inteligível de seus improvisos. Não pude deixar de pensar em Gabriel Villela. Para me provocar – e provar a superioridade do teatro sobre o cinema –, Gabriel vive ameaçando tirar a máquina da tomada e acabar com o filme. Uma parte significativa da peça passa-se às escuras, à luz de um fósforo – meu reino por uma vela! -, mas também existem filmes que entram no buraco negro. O documentário de Lírio Ferreira sobre Cartola, por exemplo. É ótimo quando a gente vê coisas que nos estimulam, seja teatro. cinema, show ou o quê. Fiquei pensando que título dar a este post. Há uma faixa no palco. Diz ‘Distraídos, venceremos’. Achei muito bacana, mas há um monólogo sobre a solidão dos cães que uivam à noite. E, quando um late – au, au -, todos os cães se unem numa sinfonia que vara a madrugada. Shakespearianamente, em ‘Vida’, latir ou não latir é a questão.